Por que o consórcio cresce mesmo com os juros nas alturas?

Quando os juros sobem, o crédito encarece. O financiamento fica mais pesado, o banco exige mais garantias e a parcela, que antes cabia no orçamento, começa a pressionar. Para muita gente, esse cenário paralisa a decisão de comprar um carro. Para outra parte, ele acelera. E o consórcio é o caminho que essa parte está escolhendo.

Com a taxa Selic em 14,75% ao ano, o consórcio começou 2026 com 12,85 milhões de participantes ativos no país, crescimento de 12,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a ABAC. Os números crescem exatamente quando o financiamento fica mais caro. Isso não é coincidência.

Por que juros altos favorecem o consórcio?

A lógica é direta: com a Selic em patamares elevados, os financiamentos tradicionais ficam mais caros, tornando o consórcio uma alternativa com menor custo efetivo total. 

Quem financiava um carro de R$100 mil pagando 20% ao ano em juros, hoje pode estar pagando 27% ou mais, dependendo do perfil de crédito e da instituição. No consórcio, esse custo não existe. A taxa administrativa é fixa, distribuída ao longo do plano, e não acompanha a oscilação da Selic.

Em outras palavras: quanto mais o banco cobra para emprestar, mais o consórcio se destaca como alternativa. E o foco deixa de ser “como pegar o carro rápido” e passa a ser “como evitar um compromisso financeiro pesado demais”. 

O consórcio é seguro em tempos de instabilidade? 

Essa é a dúvida que paralisa quem ainda não entrou. Vale comprometer uma parcela mensal num período de incerteza econômica?

A resposta está na estrutura do produto. O consórcio é regulamentado pelo Banco Central do Brasil, o que garante regras claras sobre gestão dos grupos, proteção dos recursos e critérios de contemplação. Os fundos arrecadados pelos participantes são administrados pela administradora com fiscalização ativa do Bacen, o que diferencia o consórcio de qualquer modalidade informal de poupança coletiva.

Para o economista da ABAC, Luiz Antonio Barbagallo, o consórcio pode ser considerado um “disciplinador”, uma poupança com objetivo definido, que, aliado à flexibilidade na utilização do crédito e a parcelas acessíveis, possibilita poder de compra à vista no momento da contemplação, tornando-o um fator de apoio ao desenvolvimento econômico, sem gerar inflação e sem imediatismos. 

Enquanto o financiamento sofre impacto direto dos juros altos, o consórcio tende a preservar parcelas mais leves e um custo total menor em muitos cenários de médio e longo prazo. E é exatamente aí que ele passa a chamar atenção de quem começa a fazer contas com mais calma.

O consórcio cresce porque o comportamento financeiro muda 

De janeiro a dezembro de 2025, foram comercializadas 5,16 milhões de cotas em todo o sistema de consórcios no Brasil (um aumento de 15,1% em relação ao ano anterior). A meta inicial para o ano era de 8%. O mercado entregou quase o dobro. 

Para 2026, a estimativa da ABAC aponta expansão de até 11%, cinco pontos percentuais acima do projetado inicialmente para 2025. Para veículos leves especificamente, a projeção é de crescimento de 6% ao longo do ano. 

Esses números contam uma história clara: o consórcio não cresce apesar da crise. Ele cresce por causa do ambiente que a crise cria. Principalmente para aqueles que:

  • Nunca tinham considerado essa modalidade
  • Acreditavam que financiamento era a única opção
  • Passaram a buscar formas mais inteligentes de comprar

Ainda mais porque a parcela do consórcio não sobe com a Selic. A taxa administrativa é definida no contrato e não muda ao longo do plano. O crédito é corrigido por índice do setor automotivo, o que protege o poder de compra do participante mesmo que os preços dos carros subam durante o período.

O que pode mudar é a dinâmica das assembleias. Em momentos de incerteza, menos participantes oferecem lances, o que pode facilitar a contemplação antecipada para quem tem reserva disponível. A crise, paradoxalmente, pode acelerar o acesso à carta de crédito para quem entrou com estratégia.

O cenário mudou. A sua decisão também pode mudar

Cenários de juros altos mudam prioridades. E isso faz muita gente sair do impulso para entrar no planejamento.

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